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Opinião de Malaquias

Onde está a honestidade? – A atualidade de Noel

Claudio Weber Abramo

O sambista carioca Noel Rosa morreu em maio de 1937, sem completar 27 anos. Tinha uma enorme habilidade em unir melodias simples a letras inteligentes. Esbanjava ironia ao tratar dos mais variados assuntos, incluindo a corrupção e a pobreza no Brasil. Suas músicas têm uma atualidade assustadora, levando-se em conta que elas foram elaboradas nas primeiras décadas do século passado.

Exagero? Veja o trecho inicial do samba “Onde Está a Honestidade”, de 1933 (isso mesmo, 1933): “Você tem palacete reluzente / Tem joias e criados à vontade / Sem ter nenhuma herança nem parente / Só anda de automóvel na cidade... / E o povo já pergunta com maldade / Onde está a honestidade? / Onde está a honestidade?”. É só ler os jornais, assistir aos telejornais ou acessar a internet e constatar a quantidade massacrante de casos de políticos, empresários, funcionários públicos, entre outros, envolvidos em casos de corrupção. Pior: não temos motivos para acreditar que isso vai mudar.

Veja o trecho seguinte da música: “O seu dinheiro nasce de repente / E embora não se saiba se é verdade / Você acha nas ruas diariamente / Anéis, dinheiro e até felicidade...”. Só mesmo armando-se de muita ironia para encarar a realidade brasileira, que insiste em não mudar.

Outra característica marcante do nosso País, além da corrupção, é a pobreza de uma parcela bastante razoável da população. Pois é do mesmo ano de 1933 outra obra-prima de Noel. Chama-se “O Orvalho Vem Caindo”. Acompanhe: “O orvalho vem caindo / Vai molhar o meu chapéu / E também vão sumindo as estrelas lá no céu / Tenho passado tão mal / A minha cama é uma folha de jornal”. Na sequência, ele fala que seu cortinado é o vasto céu de anil, e despertador é o guarda-civil (“que o salário ainda não viu”).

“João Ninguém” é de 1935: “João Ninguém / Que não é velho nem moço / Come bastante no almoço / Pra se esquecer do jantar / Num vão de escada / Fez a sua moradia / Sem pensar na gritaria / Que vem do primeiro andar”. Esse João nunca teve inimigo nem opinião.

Noel tinha apenas 19 anos quando compôs seu primeiro sucesso, “Com que Roupa”, sobre um Brasil de tanga, do brasileiro sempre sem grana. Entre 1929 e 1937 produziu cerca de 250 músicas, muitas delas clássicos da música brasileira. Ele, que já foi chamado de “o inventor da MPB”, sempre teve como inspiração os tipos sociais – operários, bicheiros, prostitutas, fofoqueiras.

Se você quiser saber mais, aconselho a leitura de “Noel Rosa – Uma Biografia”, de João Máximo e Carlos Didier. Há também “O Jovem Noel”, de Guca Domenico. Toda a obra do sambista está na caixa de CDs “Noel Pela Primeira Vez”. É divertimento garantido.

Rogério Malaquias é jornalista free-lancer e pesquisador da chamada “Época de Ouro” da música popular brasileira (1929 – 1945). E-mail: rmalaquias@ig.com.br


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