Por Fábio Pereira
Mordiscar um hambúrguer parece algo inofensivo. Digo isso do ponto de vista do homem, porque para o hambúrguer a dentada representa uma violenta mutilação. Ócios do ofício para quem nasceu com um talento todo especial para ser deliciosa guloseima...
O caso é que essa massa gordurosa (falo do hambúrguer e não do sujeito comedor de hambúrguer) consome 2400 litros de água no seu processo de fabricação. Estão inclusos aí todos os ingredientes que fazem deste amontoado de carne moída achatada a gostosura que ele é. As contas são da ONG WWF, que as publicou no estudo “Países ricos, água pobre”.
Os números nos levam a recordar que a demanda pela água não pára de crescer. Somos seis bilhões de seres humanos sedentos. Não por hambúrgueres, mas por água. E, de tão sequiosos e imprevidentes que somos, esquecemos que ela é um recurso finito.
A crise não começou hoje. Não é preciso ir longe: no Nordeste brasileiro, coronéis, historicamente, trocam água por voto e submissão do povo. Mas, se quiser, vá mais longe: o Estado da Flórida, segundo produtor mundial de laranja, teve seus pomares prejudicados pela seca. Mas é possível ir ainda mais longe, muito mais longe: no Oriente Médio, há regiões tão secas que uma das saídas mais comuns é beber água do mar.
Segundo a Associação Internacional de Dessalinização o uso da técnica deverá dobrar até 2015. Atualmente, 0,5% da água potável consumida no mundo é retirada dos oceanos. De acordo com ambientalistas, a prática consome energia demais. Um aumento de 100% no número de dessalinização, conseqüentemente, elevaria a demanda energética. E se fôssemos tratar aqui do problema de se aumentar a demanda por energia mundial, daria outro artigo.
Diante disso tudo surge uma necessidade enorme por coerência. O homem é, em excesso, um ser incoerente. Precisa do ar para viver, mas o emporcalha todos os dias com gases assassinos. Está na hora de se adotar meios mais sustentáveis de lidar com a água. O caso é difícil, mas deve ser enfrentado. Não é o fim dos hambúrgueres que está em jogo. É o nosso fim, o dos comedores. Existe vida inteligente atrás de uma mordida distraída?
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